Eu e Clarice…
22 out 2011 Deixe um comentário
Comecei um flerte com Clarice Lispector há algum tempo… Lendo uma frase aqui e ali, um texto acolá; comentando, discutindo, trocando ideias com que também a aprecia. Fui percebendo que sua subjetividade tinha muito a me dizer, que suas palavras sempre me atingiam profundamente, invadindo minha alma como que a me desvendar por completo.
Nascida na Ucrânia e naturalizada brasileira, viveu entre 1920 e 1977, tempo suficiente para marcar gerações com sua inconfundível e indelével obra, recheada de contos, romances, artigos, tudo com muita poesia…
Ela fala pra mim, de mim… Me conhece como ninguém… E é por isso que reproduzo incansavelmente suas palavras, que ouso dizer que também são minhas. E o flerte se transformou num grande amor!
Jutânia Souza

Dá-me a tua mão: Vou agora te contar como entrei no inexpressivo que sempre foi a minha busca cega e secreta. De como entrei naquilo que existe entre o número um e o número dois, de como vi a linha de mistério e fogo, e que é linha sub-reptícia. Entre duas notas de música existe uma nota, entre dois fatos existe um fato, entre dois grãos de areia por mais juntos que estejam existe um intervalo de espaço, existe um sentir que é entre o sentir – nos interstícios da matéria primordial está a linha de mistério e fogo que é a respiração do mundo, e a respiração contínua do mundo é aquilo que ouvimos e chamamos de silêncio. (Clarice Lispector)
Não entendo. Isso é tão vasto que ultrapassa qualquer entender. Entender é sempre limitado. Mas não entender pode não ter fronteiras. Sinto que sou muito mais completa quando não entendo. Não entender, do modo como falo, é um dom. Não entender, mas não como um simples de espírito. O bom é ser inteligente e não entender. É uma benção estranha, como ter loucura sem ser doida. É um desinteresse manso, é uma doçura de burrice. Só que de vez em quando vem a inquietação: quero entender um pouco. Não demais: mas pelo menos entender que não entendo. (Clarice Lispector)
Não sei quantas almas tenho…
31 ago 2011 Deixe um comentário
em Eles...
Não sei quantas almas tenho.
Cada momento mudei.
Continuamente me estranho.
Nunca me vi nem acabei.
De tanto ser, só tenho alma.
Quem tem alma não tem calma.
Quem vê é só o que vê,
Quem sente não é quem é,
Atento ao que sou e vejo,
Torno-me eles e não eu.
Cada meu sonho ou desejo
É do que nasce e não meu.
Sou minha própria paisagem;
Assisto à minha passagem,
Diverso, móbil e só,
Não sei sentir-me onde estou.
Por isso, alheio, vou lendo
Como páginas, meu ser.
O que segue não prevendo,
O que passou a esquecer.
Noto à margem do que li
O que julguei que senti.
Releio e digo :
“Fui eu ?”
Deus sabe, porque o escreveu.
Fernando Pessoa
Borboleteando…
21 ago 2011 Deixe um comentário

Disse a flor para o pequeno príncipe: é preciso que eu suporte duas ou três larvas se quiser conhecer as borboletas.
Antoine de Saint-Exupéry
Minha paixão por borboletas se confunde com as melhores lembranças da minha infância quando, no jardim da minha casa, eu as observava entre as flores. Elas estavam sempre lá… voando livres e se misturando com as pétalas igualmente coloridas.
Borboleta é pétala que voa…
Clarice Lispector
Com o passar do tempo a paixão se somou a uma grande admiração pautada na historia de vida delas: a espera paciente inerente à metamorfose que faz com que elas troquem o ato de rastejar pela liberdade de voar, a clausura do casulo pela imensidão do horizonte, a aparência esquisita por uma magnificamente bela…
Acho que todo ser humano é um pouco borboleta… As fases da vida correspondem às etapas da metamorfose, cada uma com sua importância e significados. Ou quando já é uma borboleta, mas insiste em se manter enclausurado, recolhendo as asas e se recusando a voar; quando ainda deve ser lagarta, mas já quer realizar voos altos, sem possibilidades; quando vira borboleta e esquece-se de onde veio…
A alma é uma borboleta…
há um instante em que uma voz nos diz
que chegou o momento
de uma grande metamorfose…
Rubem Alves
Sempre Clarice…
25 jul 2011 2 Comentários
em Eles...

Quando fazemos tudo para que nos amem e não conseguimos, resta-nos um último recurso: não fazer mais nada.
Por isso, digo, quando não obtivermos o amor, o afeto ou a ternura que havíamos solicitado, melhor será desistirmos e procurar mais adiante os sentimentos que nos negaram.
Não fazer esforços inúteis, pois o amor nasce, ou não, espontaneamente, mas nunca por força de imposição.
Às vezes, é inútil esforçar-se demais, nada se consegue; outras vezes, nada damos e o amor se rende aos nossos pés.
Os sentimentos são sempre uma surpresa. Nunca foram uma caridade mendigada, uma compaixão ou um favor concedido.
Quase sempre amamos a quem nos ama mal, e desprezamos quem melhor nos quer. Assim, repito, quando tivermos feito tudo para conseguir um amor, e falhado, resta-nos um só caminho…o de mais nada fazer.
Clarice Lispector
Amigos de sempre…
21 jul 2011 Deixe um comentário

Tem coisas nessa vida que nos enriquece e engrandece de tal forma que nos torna seres melhores. Uma dessas coisas é ter amigos…
Amigo é aquele que sempre nos acrescenta algo e nos proporciona a sensação de segurança e alento, mesmo fisicamente distante; é quem “chega junto”, independente da proporção da situação; é quem compreende as palavras que não foram ditas; é quem acolhe um sorriso ou uma lágrima com a mesma intensidade; é quem comemora e sofre junto; é quem surge e vai embora, mas deixa um rastro de carinho, companheirismo, afeto, compreensão… que nunca mais desaparece.
A todos os meus amigos de ontem, hoje e sempre, a minha gratidão pela presença ou pela distancia compartilhada e por todo aprendizado de uma vida…
Jutânia Souza
Meus amigos são todos assim: metade loucura, outra metade santidade. Escolho-os não pela pele, mas pela pupila, que tem que ter brilho questionador e tonalidade inquietante. Escolho meus amigos pela cara lavada e pela alma exposta. Não quero só o ombro ou o colo, quero também sua maior alegria. Amigo que não ri junto, não sabe sofrer junto. Meus amigos são todos assim: metade bobeira, metade seriedade. Não quero risos previsíveis, nem choros piedosos. Quero amigos sérios, daqueles que fazem da realidade sua fonte de aprendizagem, mas lutam para que a fantasia não desapareça. Não quero amigos adultos, nem chatos. Quero-os metade infância e outra metade velhice. Crianças, para que não esqueçam o valor do vento no rosto, e velhos, para que nunca tenham pressa. Tenho amigos para saber quem eu sou, pois vendo-os loucos e santos, bobos e sérios, crianças e velhos, nunca me esquecerei de que a normalidade é uma ilusão imbecil e estéril.
Fernando Pessoa
“Saudade é ser, depois de ter…”
12 jul 2011 1 Comentário

Saudade é ser, depois de ter…
Guimarães Rosa
Saudade é uma coisa que pode se apresentar com inúmeras faces… Ela nunca está sozinha, sempre traz consigo outros e outros tantos sentimentos. Sejam os possíveis ou os impossíveis, os reais ou os imaginários, os permitidos ou os proibidos, os escancarados ou os que só vivem no âmago de cada ser… É um pouco como diz Rubem Alves: “a saudade é a nossa alma dizendo para onde ela quer voltar”… Ou Bob Marley: “saudade é um sentimento que quando não cabe no coração, escorre pelos olhos”…
Sentir saudade é bom quando o que está ausente pode se fazer presente de alguma forma, mas quando não pode… machuca muito, principalmente porque “também temos saudade do que não existiu, e dói bastante” (Carlos Drummond de Andrade).
A saudade às vezes congela o coração e a alma, faz o tempo estagnar em algum momento porque ”saudade é amar um passado que ainda não passou, é recusar um presente que nos machuca, é não ver o futuro que nos convida… “(Pablo Neruda).
O mais inexplicável é ter saudade do desconhecido, do que foi sem nunca ter sido, do que partiu mas se imortalizou nos sonhos mais recônditos…
“E é só você que tem a cura do meu vício de insistir nesta saudade que eu sinto de tudo que eu ainda não vi”… (Renato Russo)
Jutânia Souza
Devaneios…
11 jul 2011 Deixe um comentário
em Eu

Às vezes acho que viver é muito difícil. Na realidade acho isso muitas vezes…
Complicamos tudo com mais facilidade do que descomplicamos.
Procuramos os caminhos mais complexos e por vezes mais dolorosos;
Estamos sempre querendo mais e mais como se as conquistas de nada valessem;
Exigimos dos outros além do que somos capazes de dar;
Concluímos que tudo poderia ser diferente, mesmo que tenha sido exatamente como esperávamos que fosse;
Fazemos com que nossos sonhos percam a graça quando se tornam realidade;
Estamos sempre buscando a felicidade sem perceber que ela pode estar ao nosso lado;
Vivemos presos ao passado, preocupamo-nos excessivamente com o futuro e… o presente passa sem que percebamos…
Jutânia Souza
Um pouco de Clarice…
Há momentos na vida em que sentimos tanto
a falta de alguém que o que mais queremos
é tirar esta pessoa de nossos sonhos
e abraçá-la.
Sonhe com aquilo que você quiser.
Seja o que você quer ser,
porque você possui apenas uma vida
e nela só se tem uma chance
de fazer aquilo que se quer.
Tenha felicidade bastante para fazê-la doce.
Dificuldades para fazê-la forte.
Tristeza para fazê-la humana.
E esperança suficiente para fazê-la feliz.
As pessoas mais felizes
não têm as melhores coisas.
Elas sabem fazer o melhor
das oportunidades que aparecem
em seus caminhos.
A felicidade aparece para aqueles que choram.
Para aqueles que se machucam.
Para aqueles que buscam e tentam sempre.
E para aqueles que reconhecem
a importância das pessoas que passam por suas vidas.
O futuro mais brilhante
é baseado num passado intensamente vivido.
Você só terá sucesso na vida
quando perdoar os erros
e as decepções do passado.
A vida é curta, mas as emoções que podemos deixar
duram uma eternidade.
A vida não é de se brincar
porque um belo dia se morre.
Clarice Lispector
